terça-feira, 27 de janeiro de 2015
PORTO VELHO AOS 100 ANOS
Nas tantas datas que envolvem a formação de nosso Estado e de nossa Capital estamos a comemorar 100 anos dessa cidade tão querida, tão acolhedora e tão cheia de possibilidades, mas também tão explorada, maltratada e esquecida.
Definitivamente temos de mudar nosso olhar sobre nós mesmos. Aqui não é mais cidade dos distantes nem dos aventureiros que aqui vieram para explorar durante um tempo e voltar para seus Estados. Aqui é a nossa cidade, onde nossos filhos nasceram, estudam (portanto, já não precisam mais ir para outras capitais), onde produzimos renda para manutenção de nossas famílias e onde temos espaço para investimentos futuros.
Porto Velho caminha para se tornar um centro de muitíssima importância na reconfiguração que a economia nacional fará, seja por conta da abertura para o Pacífico, seja pelo colapso das fontes naturais nas metrópoles do sudeste ou seja por outros motivos, mas precisa urgentemente fazer o mínimo que se exige de uma Capital.
O governo do Estado tem compromisso e responsabilidade assumida com Porto Velho, e, obviamente, esperamos no mínimo os 200 km de asfalto e as obras de saneamento que até agora não se teve a competência de fazê-lo. A motivação pode ser salvar a administração municipal atual e pavimentar candidaturas futuras, desfazer ou esconder más imagens construídas, não importa. O que importa é que precisamos mudar a “cara” de nossa cidade.
Nunca numa campanha se falou tanto daqui como nessa de 2014. A grande maioria dos candidatos amava Porto Velho, também morava aqui e iria lutar por ela. Essas palavras estão gravadas e serão cobradas. Esperamos ver o Senador e os deputados eleitos virem a público falar durante todo o mandato o que estão efetivamente fazendo por Porto Velho.
A administração municipal precisa explicar o que está acontecendo. Seria interessante mostrar o projeto gráfico da época de campanha e dizer o que está sendo feito, ou mesmo a explicação do porque não está sendo feito. A distância entre prefeitura e sociedade continua sendo inexplicável e gera uma sensação de ausência de liderança profundamente perturbadora.
Por fim, a nós cidadãos e cidadãs, cabe a responsabilidade de sujar menos, limpar mais, dirigir com mais respeito e menos disputa e agir de maneira que não deixemos apenas ao poder público todos os deveres. Exemplos disso são: a Associação Cultural Rio Madeira que lutou pela reforma do prédio histórico da Câmara de Vereadores, o grupo que luta na justiça pela preservação da fachada de 1950 do Cine Resky e o projeto do polivalente Rudnei Prado que propõe manter a imagem de cartão postal do outro lado do Rio Madeira, dando condições para preservar o ambiente, respeitar as leis, facilitar a sobrevivência digna dos moradores, gerar mais um ponto turístico importante e legalizar a inevitável urbanização da margem esquerda de nosso rio.
Enfim, que o governo do Estado seja bem sucedido e prepare sua eleição futura para o que quiser; que o vice-governador prepare e crie suas condições para se eleger governador; que o prefeito crie condições para sua sobrevivência política e reeleição, que os legisladores federais, estaduais e municipais sejam promovidos, que novas lideranças políticas surjam, desde que Porto Velho seja tratada com respeito e carinho, para que não a transformemos num potencial que se tornou uma decepção às gerações que aqui estão nascendo. Construamos, pois, os próximos 100 anos. Parabéns!
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
O JESUS DO NATAL
Estava lendo a conversa do anjo com José, em Lucas 1, anunciando-lhe a respeito de quem seria Jesus, o garoto que nasceria alguns meses depois, e que transformaria o jeito de viver do mundo inteiro. Ao ler essa conversa, tão simples e tão profunda, coloquei-me a pensar sobre que tipo de relacionamento tenho com Ele.
Sim, em alguns momentos me questiono profundamente sobre isso, pois temo ter um tipo de contato formal, institucional, religioso, que, sem dúvida, me mantém sabendo e aprendendo cada vez mais sobre Ele, mas não necessariamente me mantem em comunhão com Ele.
O anjo disse, primeiro, que o menino seria sobrenatural, pois era gerado pelo Espírito Santo. Era humano o suficiente por ser gerado numa mulher, mas divino o suficiente por ser gerado pelo Espírito de Deus.
Que simples e que profunda essa declaração! O meu Senhor não é um líder religioso como tantos outros que existem. Ele não é comum. É extra-ordinário. Segui-lo, portanto, deixa de ser um projeto humano, algo que caiba numa instituição, numa previsibilidade pequena do cartesianismo que dirige o homem moderno.
Isso me conduz a viagens extraordinárias, tirando de mim qualquer temor que em alguns instantes acometem a alma humana e que também não encontra respostas no racionalismo que nos caracteriza.
Mas o anjo também disse que Ele deveria ser chamado de Ieshua, uma derivação da palavra ioshua, que significava salvação. Aportuguesando o termo, aprendemos chamá-lo de Jesus. José precisava ter consciência desde aquele momento que Ele era um projeto de Deus para salvar o seu povo de seus pecados. Não era salvar de qualquer outra realidade, mas daquilo que separa o homem do Criador, que é o pecado.
Mais uma vez minha alma celebra o sentido da existência. Eu sei o que é ser pecador. Eu sei que desagrado o Deus Criador desde que me lembro ser gente. Eu vivo no meio de um povo de impuros lábios. Portanto, eu sei que preciso de perdão, mas não um perdão que nega a justiça de Deus. Por isso, sei que Jesus veio para me salvar e salvar todo o Seu povo dos pecados deles e a cruz era o caminho natural de sua vida na terra.
Sei que nunca teria virtude suficiente para encobrir, compensar ou pagar o meu estado de pecador, daí, me encanta chegar nessa época do natal e lembrar a mim mesmo que Jesus nasceu para pagar naquela cruz as minhas culpas.
Por último, o anjo disse que tudo aquilo foi para se cumprir o que havia sido dito pelo profeta Isaias há séculos. Caramba, o menino de Nazaré, filho da Virgem, que viveu naquele pequeno pedaço de terra do Império Romano não foi um acidente na história: Ele era previsto. Ele é o cumprimento de uma profecia que surge desde o Éden e passa por tantos outros profetas.
Esse é o meu Senhor. O menino do Natal. Cada dia me alegra crer, contra todas as lógicas, que Ele é realmente o meu amigo, que me perdoa, que me impulsiona, que me ama e que me espera.
“Senhor, não me deixe ser fruto de uma instituição. Quero ser fruto de quem você é e me relacionar contigo assim, o milagre que se encarnou para me salvar, conforme dizia as antigas escrituras dos judeus.”
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
UMA CIDADE PARA O FUTURO
Durante um bom tempo fui levado a crer que poderia fazer mais alguma coisa por Rondônia, e especialmente por Porto Velho, através da política, com um mandato, pois sei o poder que ela tem de mover os meios e a sociedade na busca desses objetivos. Mas dois fatos me chamam atenção no dia de hoje. O primeiro é que ganhar eleição envolve muito mais do que nós, meros cidadãos, imaginamos. O segundo, é que é possível se organizar e fazer mesmo sem mandato e a prova disso foi a reforma do prédio da antiga Câmara de Vereadores de Porto Velho.
Alguns sonhos poderão ser concretizados se juntarmos pessoas capazes de sonharem juntos, e independente de eleições. Eis alguns exemplos:
1) Contar a história da EFMM para os turistas e novas gerações: a partir de uma experiência que já se tem em São Miguel das Missões, poderia ser montado um espetáculo com som e luz, o que gera um pequeno gasto inicial mas que é permanente e que tem retorno garantido. O espetáculo é gravado por vozes de personagens que contam os principais episódios da história de nossa Estrada de Ferro, emitidos em caixas de sons de lugares diferentes naquela área, que receberia jatos de luz com cores diferentes em cada espaço daqueles, o que leva naturalmente o expectador a olhar e vivenciar a imagem que sua mente cria a partir daquele estímulo. Isso naturalmente levaria alunos assistirem, moradores antigos, moradores novos e principalmente turistas, além de ser possível criar alguns outros valores agregados, como venda de artesanatos da região, cobrando um valor muito simbólico que ajudaria manter a área pela associação que cuidaria do projeto.
2) Criar eventos culturais de grande expressão: é possível criar um festival de música instrumental e clássica, especialmente contando com o teatro e com auditórios grandes que Porto Velho começa ter, como da faculdade UNOPAR. Isso certamente diferenciaria Porto Velho das demais capitais da região, daria oportunidades para nossos músicos e poderia ser trazido gente boa de outros lugares todos os anos para aqui tocarem.
Além disso, temos uma grande massa de nordestinos e descendentes em Porto Velho, que poderia ser criado um Festival de Nordestinidades, que transformaria a cidade num lugar de cultura popular daquela região tão criativa e tão bem representada aqui e que certamente geraria, além de emprego e renda, uma reanimação da produção cultural que pouco tem sido estimulada.
3) Museu: nenhum povo se desenvolve plenamente sem reconhecer sua história e aqueles e aquelas que a construíram. Faz-se urgente que Porto Velho tenha um museu não apenas da EFMM. Quantas fotos, quantas peças, quantas narrativas! Temos muitos pioneiros de uma capital tão nova que poderiam gravar depoimentos e isso ser guardado para que futuras gerações assistam e se percebam na história.
Parabéns aos Membros da Associação Cultural Rio Madeira e ao Vereador Alan Queiróz por terem viabilizado a restauração do antigo prédio de nossa Câmara de Vereadores. Tomara que o exemplo nos estimule a ajudarmos nos construir.
Quem está disposto ou disposta a ajudar?
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
RONDÔNIA: UM ESTADO NO CAOS
Um povo padece quando seus líderes o conduz ao abismo e essa é a sensação que se vive no Estado de Rondônia com as novas operações por aqui perpetradas.
São tantas as operações que não compensa citar seus nomes, mas de comum se tem alguns fatos que devem nos levar a sérias reflexões:
1. O Ministério Público de Rondônia é sério? Crê-se que sim, portanto, precisa ser
respeitado e apoiado em suas ações. Quem não acredita nisso que se manifeste e faça as devidas acusações;
2. O que está sendo feito em relação às operações anteriores em nosso Estado? A
população merece e precisa saber o desenvolvimento das investigações para que não fique com a sensação de impunidade ou de que há apenas um grande teatro que não leva a nenhum resultado.
3. O desvio de dinheiro das obras públicas parece ser cada vez mais comum. Como ficam as leis de licitações? Parece que se faz urgente uma revisão e reajustes dessas leis ou um empoderamento cada vez maior dos órgãos de fiscalização.
4. A corrupção está sempre ligada às campanhas políticas? Parece que cada vez fica mais claro que para se ganhar eleição é preciso que se tenha muito dinheiro, muita ligação com o poder e a cara de pau de passar uma imagem de seriedade que não se tem. Portanto, é tempo de se lutar ardentemente por uma reforma política e eleitoral que mude o padrão que se tem hoje, pois esse está fadado a desestimular as pessoas sérias de participarem do processo político e criar um ambiente perfeito para a malandragem que se esconde e usa o mandato para seus desmandos.
Não quero cometer a leviandade de acusar quem ainda não foi julgado, mas quero manifestar a decepção em viver num Estado tão bonito, tão cheio de possibilidades e ficar com vergonha de vê-lo ser sucateado, desrespeitado e exposto ao ridículo na mídia nacional.
Isso tudo pode nos levar ao desânimo de participação no processo eleitoral, à perda de esperança em renovação das lideranças e a um processo de luta pela sobrevivência individual ao invés do serviço à sociedade.
Resta o apoio ao Ministério Público, a torcida pela justiça, a dúvida do que fazer frente a essa situação, a indignação, a frustração e o sentimento de ter sido engando. De novo.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
ASSUSTADORA SITUAÇÃO
A cada dia que passa a situação do brasileiro parece piorar quando se considera as instituições do país.
O Brasil pára na ansiedade de saber o que a ultima instância da justiça responderá sobre a possibilidade de repetir o mais simbólico dos julgamentos. A partir dessa decisão a população terá uma opinião determinante sobre sua Suprema Corte e que ficará por muito tempo.
O Estado de Rondônia se vê envergonhado pela condenação de um de seus senadores, de um de seus deputados federais, de um de seus deputados estaduais, da fuga de um de seus ex presidentes da Assembléia Legislativa, da pirotecnia de prisões, libertações e acusações à várias de suas autoridades, sendo que agora seu Ministério Público pede o arquivamento da denúncia contra 4 deputados, o que faz a população questionar seriamente as motivações das ações efetuadas.
O município de Porto Velho, a capital do Estado, tem também a prisão, soltura e acusação de alguns de seus vereadores, empresários e outras autoridades, deixando-nos na mais absoluta dúvida do que é ou não verdade.
Uma eleição se aproxima e as mesmas práticas, as mesmas alianças espúrias e interesseiras e os mesmos atores que ainda restam sem punição, aparecem como pré candidatos (já que boa parte das lideranças está impedida de disputar), dando a impressão de que não teremos muitas opções diferentes de escolha das que já tivemos em eleições anteriores, ou seja, continuaremos suscetíveis de sermos usados por malandros profissionais da política ou aventureiros descomprometidos com as questões sociais, a serviço de si mesmos ou de outros mais malandros do que eles.
Enfim, fomos à rua, gritamos, esperneamos e não alimentamos esperança de uma mudança à vista.
Olhar essa assustadora situação deve nos levar a consciência de qual tomada de posição é a de cada um de nós cidadãos e cidadãs. Nós construímos essa sociedade. Nós somos os responsáveis por ela e nós precisamos agir. Enquanto homens e mulheres de bem se encastelarem em seus confortos, analisarem como que de fora do planeta e não agirem, tudo tende a piorar, pois é essa a sensação que experimentamos.
Até o dia 05 de outubro as pessoas podem se filiar num partido que se adéqüe o mínimo ao seu modo de pensar, pois assim, ajudará na escolha dos candidatos ano que vem e, quem sabe, se candidatar, pois quem acha que não tem aparecido bons candidatos talvez possa colocar seu nome como opção de escolha. O PSOL tem imenso prazer em receber pessoas que queiram trabalhar honestamente e que nos ajude construir um modo decente de fazer política, modo esse que não tem medo de assumir o poder, mas que não se escraviza pelo mundinho do caminho mais perto e sim o melhor para ganhar eleição. Obviamente outros partidos têm procurado filiados e cada um faz política do seu modo e com seus próprios objetivos. O que saliento aqui é o papel ativo que sobra a cada pessoa no intuito de transformar esse Estado em motivo de orgulho e não de vergonha como muitas vezes tem ocorrido.
A situação é assustadora, mas é também oportuna a quem desejar influenciar positivamente. Se depender de você para melhorar a situação, o que será feito?
quinta-feira, 21 de março de 2013
TODOS CONTRA TODO TIPO DE VIOLÊNCIA
Há cerca de 2.500 anos atrás o profeta Habacuque fez a seguinte oração: “Ó Senhor Deus, até quando clamarei pedindo ajuda, e tu não me atenderás? Até quando gritarei: ‘Violência!’, e tu não nos salvarás? Por que me fazer ver tanta maldade? Por que toleras a injustiça? Estou cercado de violência; há brigas e lutas por toda parte. Por isso, ninguém obedece à lei, e a justiça nunca vence. Os maus levam vantagem sobre os bons, e a justiça é torcida. (Hab 1:2-4 - BLH). Esse era o grito de homem que via sua sociedade se destruindo, como um osso acometido por osteoporose, especialmente por causa de uma opção de viver sem seguir as propostas de Deus para sua vida.
Fui convidado pelos pais de algumas jovens assassinadas em Porto Velho para, junto com outras pessoas, organizarmos uma caminhada contra a violência. A própria convivência com estes pais, a troca de informações sobre as histórias vividas por eles e outras famílias, o recebimento dos dados da violência no Estado, recebidos da Secretaria de Segurança (como , por exemplo, 444 casos de estupro em 2012), além do próprio cuidado em relação às minhas filhas e jovens da igreja onde sirvo como pastor, têm me feito fazer o mesmo clamor que o profeta Habacuque.
A sensação de impotência frente aos números e aumento diário de todo tipo de violência não pode nos calar. Precisamos tomar consciência de que a violência não é um problema apenas de quem a sofreu, mas de todos, pois todos estamos sujeitos a ela, seja de que tipo for. Há uma cultura de violência imposta na sociedade e não podemos vivenciá-la como se natural fosse.
A caminhada, Todos Contra Violência, é um convite à nossa conscientização, uma cobrança de punição dos culpados, a criação de leis mais justas e cumprimento das que já existem, o pedido de investimento na segurança pública e, principalmente, uma manifestação de solidariedade a estes pais que vivem a dor dos sofrimentos de seus queridos e de suas queridas, seja por assassinato ou violência de trânsito, por preconceito, por violência doméstica, por condição social degradante, por injustiça de qualquer ordem. Enfim, é um clamor da sociedade de Porto Velho, sem estar ligado a partidos políticos, religiões ou governos.
Habacuque gritou sua dor ao Deus em quem cria. Também grito. Ele sabia que aquilo era resultado de uma vida de desobediência de todo o seu povo. Também sei. Ele termina o seu livro dizendo: “Ainda que as figueiras não produzam frutas, e as parreiras não dêem uvas; ainda que não haja azeitonas para apanhar nem trigo para colher; ainda que não haja mais ovelhas nos campos nem gado nos currais, mesmo assim eu darei graças ao Senhor e louvarei a Deus, o meu Salvador.” (Hab 3:17-18 BLH). Também continuo crendo e esperando, mas assim como a esperança dele era acesa pela percepção de sua realidade, grito sim, porque tenho visto e quero uma cidade que ame a paz e o bem estar de seus cidadãos.
Você é convidado ou convidada a caminhar com os pais neste sábado, 23, 8h30min, saindo da Praça das Caixas D’água até a Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
sábado, 10 de novembro de 2012
CALVINISMO E CAPITALISMO: QUAL É MESMO A SUA RELAÇÃO?
Alderi Souza de Matos
A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no de envolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.
Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um “espírito capitalista” que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo “no mundo” caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.
Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: “Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente” (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661).
Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo.
Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.
FONTE: www.mackenzie.br/7076.htm
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Carta de Luciana Genro
(Carta de Luciana Genro ao jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, que entrevistou o prefeito eleito de Macapá e que é do PSOL).
Prezado Fernando Rodrigues,
Gostaria de fazer algumas considerações sobre a entrevista que o prefeito eleito Clécio Luís lhe concedeu no programa Poder e Política. Antes de mais nada registro minha avaliação de que o PSOL obteve uma grande vitória política e eleitoral. Nosso partido está ligado ao povo para poder cumprir seu dever de impulsionar as lutas sociais pelas demandas necessárias para melhorar a vida. Num momento em que o capitalismo encontra-se em crise e despejando sobre os trabalhadores, jovens e aposentados o peso desta crise, é decisivo avançar na mesma direção pela qual fundamos o PSOL: organizar um partido por uma nova política, conectada com as lutas anticapitalistas, independente, democrático e socialista.
Mas sempre que um partido aumenta seu peso social as pressões sobre seu rumo político aumentam. Até a classe dominante tenta incidir nas definições de sua linha estratégica. Com o crescimento do peso do PSOL, os debates sobre os rumos do partido tendem a ser tornar públicos. Vou aqui fazer um contraponto ao Prefeito Clécio porque considero que suas posições são bem minoritárias no partido. E seria muito ruim que posições minoritárias erradas apareçam como se fossem do PSOL. Não digo que foi esta a intenção do companheiro, mas se a mesma não tem um contraponto pode parecer assim.
Sobre a política de alianças do PSOL, o prefeito eleito diz que é “daqueles que defende que o PSOL deve ter uma política de reaproximação com o PC do B, com o próprio PPS, com o PV, com o PT”. Em seguida, em relação ao financiamento das campanhas, Clécio diz que a sua posição é de que “ nós podemos aceitar, sim, o financiamento, na atual conjuntura, de empresas e bancos”. Ao final, perguntado sobre uma avaliação do governo Dilma, Clécio limita-se a dizer que é uma continuidade de Lula, e mesmo diante da insistência do repórter nega-se a fazer um juízo sobre a qualidade do governo.
As três questões estão interligadas. É claro que o Prefeito tem todo o direito de propor mudanças no Estatuto e no Programa do PSOL. Mas afirmo, e tenho certeza que falo em nome da maioria da militância do PSOL , estas mudanças não passarão. Não passarão porque nós, que fundamos o PSOL, rompemos com o PT justamente por que este partido abandonou a defesa dos interesses dos trabalhadores. A reforma da previdência, cujo voto contra foi o estopim da nossa expulsão (minha, de Heloísa Helena, Babá e João Fontes), foi o ápice desta mutação do PT, que se transformou em um agente dos interesses do capital. O interesse dos bancos e empreiteiras em financiar o PT não aconteceu por acaso. Deu- se justamente por que o partido, ao ocupar prefeituras e governos estaduais, iniciou este processo de mudança de lado, consolidado ao chegar no governo federal. Esta é a definição necessária, que Clécio não fez na sua entrevista.
Não rompemos com o PT para repetir o mesmo caminho. Por isso não aceitaremos alianças indiscriminadas com os partidos do governo Dilma, que são hoje os gerentes dos negócios do capitalismo brasileiro. Também não apresentaremos inimigos de classe como grandes aliados, como fizeram Clécio e o Senador Randolfe ao receber o apoio do líder do DEM em Macapá.
Bom exemplo dá o prefeito do PSOL eleito em Itaocara, RJ. Gelsimar Gonzaga anunciou que reduzirá o próprio salário, cortará cargos de confiança e garantirá a participação do povo em seu governo através de Conselhos Populares. A campanha do PSOL no Rio de Janeiro, onde chegamos a 30% dos votos, sem alianças espúrias e sem financiamento de empreiteiras e bancos , mostra que é possível sim uma disputa real pelo poder nas capitais sem mudar de lado.
Nossa atividade eleitoral – campanhas e eventuais vitórias - devem servir para que o PSOL demonstre o sentido da sua existência. Este sentido só é dado pela nossa prática de negação da velha política e pela construção de uma alternativa política e eleitoral que responda aos interesses da maioria do povo. Esta é a grande tarefa colocada para o PSOL, ainda mais desafiadora agora que conquistamos duas prefeituras. De minha parte aposto sempre que a influência da juventude combativa e dos trabalhadores em luta tenham peso cada vez maior nas definições estratégicas de nosso partido. Por isso sempre convido a todos estes para que participem dos comitês, núcleos e plenárias do partido, que tomem o PSOL para si, pois a participação ativa da militância é que pode assegurar um partido cada vez mais conectado com a luta anticapitalista.
Grata pela atenção, Luciana Genro.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
SONHOS QUE VÃO SENDO CONSTRUÍDOS
Aluizio Vidal – Presidente Regional do PSOL
Sempre gostei da idéia de que precisamos agir para que os sonhos se transformem em realidades. Nessa eleição mais uma vez pude perceber que essa é uma proposta absolutamente factível.
Sou de uma geração que sonhou em questionar o grande sistema manipulador, mas que com o tempo se transformou nele. Alcançou alguns objetivos, porém se encantou e perdeu as forças do questionamento. Precisou, então, ser alvo do questionamento e sempre é assim mesmo.
Agora, não quero ser como “os mesmos” e viver “como nossos pais”. A nova consciência tem de ser resgatada a todo instante e não acontecerá se nos submetermos ao joguinho medíocre que gera o vil metal e nos mete no conforto de nossas casas e nos transforma em insensíveis à dor dos menos oportunizados e que foram empobrecidos por aqueles que criticamos.
Ver jovens encantados com o externo, com o visível, com o estético, sem perceber que a beleza é invisível aos olhos e que o ético é superior ao estético é muito triste, mas é desafiador. Então, observar jovens animados em fazer o contrário é encantador. Ergamo-nos povo bom, questionemos, demo-nos as mãos e “insubmetamo-nos” a esse sistema que compra votos com propagandas faraônicas, promessas falaciosas ou abraços e sorrisos hipócritas.
Mais do que agradecer, quero parabenizar as mais de 12 mil pessoas que votaram no PSOL através dos nomes de Aluizio Vidal e Prof Marto. Foi uma forma de dizer: não somos objetos de manobra. Mesmo quem votou por deferência pessoal, por fé ou por protesto, parabéns, pois fomos capazes de dizer que amamos mais a simplicidade, a autenticidade e a verdade em relação à opulência, a incongruência e a mentira.
Daqui a alguns dias “vou convidar meus irmãos trabalhadores, operários, lavradores, biscateiros e outros mais, e, juntos, vamos, celebrar a confiança, nossa luta, na esperança, de ter terra, pão e paz” (Zé Vicente); convidar estudantes, donas de casa, enfim, quem quiser alimentar esperanças e construir sonhos que sentemos juntos para continuar o processo, não um processo de construção de um nome, mas de continuação de uma idéia.
Muito obrigado a todas as pessoas que contribuíram nessa campanha tão bonita e ousaram em pensar diferente votando diferente.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Parabéns e Responsabilidade a Todos Nós
PARABÉNS E RESPONSABILIDADE A TODOS NÓS
(Aluizio Vidal, pastor presbiteriano, professor e psicólogo)
Há dois momentos muito importantes em nossa vida que nos tornam mais sensíveis a quem somos e como vivemos. O primeiro é quando participamos do velório de alguém querido ou querida. Nesse instante percebemos o quanto somos limitados e quanto a vida é efêmera e fugidia. O segundo é o aniversário, pois ao mesmo tempo em que percebemos nossos potenciais e nossa alegria, percebemos também o quanto somos frágeis, pois só nós mesmos vemos a entranha de nosso coração e, então, temos noção do quanto precisa ser mudado.
Hoje Rondônia faz mais um aniversário e precisamos celebrar intensamente todas as vitórias alcançadas, até porque foram à duras penas, sob o esforço de heróis e heroínas que se doaram e continuam se doando ao Estado, gente que aqui nasceu e gente que veio de fora. Esse esforço e heroísmo nos animam a olhar para o futuro e acreditar que Rondônia pode ser cada vez mais um Estado pujante sem ser destruidor, desenvolvido sem ser subalterno do modelo de desenvolvimento neoliberal que tem destruído o mundo, e influente na realidade brasileira de forma inclusiva sem deixar de receber influência de todos os grupos que aqui vivem.
Portanto, parabéns a quem vive, sonha e trabalha para construir esse Estado dos sonhos dourados.
Contudo, a festa não pode entorpecer-nos, fechar os nossos olhos e tirar nossas capacidades críticas, assim como fazem as paixões. Nosso Estado poderia ser muito melhor não fossem os cupins políticos que corroem nossas estruturas, agora de maneira visível, às claras, explícita. Temos sido conhecidos nos outros Estados pela capacidade de eleger gente desonesta, vagabunda e sem o mínimo respeito por quem trabalha e constrói de forma digna aquilo que comemoramos hoje.
Corrupção não pode ser nossa marca, pois não é a nossa marca. Essa é a marca de poucas pessoas que assumiram o poder em suas diversas esferas e que precisam ser defenestradas desses ambientes. Nossa marca é o amor pela terra e pela cultura nortista, a coragem de empreender longe de nossos lugares de origem e a disposição de ser uma nova geração que ama sua terra e quer construir um espaço digno e de igualdade a todos e todas.
Parabéns Rondônia. Somos o que construímos e seremos o que queremos construir, mas isso só será possível se tivermos a coragem de olhar para dentro e encarar não apenas nossos heróis e nossas heroínas para dar-lhes o reconhecimento que merecem, mas também de encarar nossos cânceres de corrupção e de “anti-vida” que nos corroem para tratarmos de forma pesada, ainda que seja ao alto preço de cortarmos a própria carne.
Caminhemos plantando vida de qualidade e celebrando aniversários antes que cheguem mais velórios.
(Aluizio Vidal, pastor presbiteriano, professor e psicólogo)
Há dois momentos muito importantes em nossa vida que nos tornam mais sensíveis a quem somos e como vivemos. O primeiro é quando participamos do velório de alguém querido ou querida. Nesse instante percebemos o quanto somos limitados e quanto a vida é efêmera e fugidia. O segundo é o aniversário, pois ao mesmo tempo em que percebemos nossos potenciais e nossa alegria, percebemos também o quanto somos frágeis, pois só nós mesmos vemos a entranha de nosso coração e, então, temos noção do quanto precisa ser mudado.
Hoje Rondônia faz mais um aniversário e precisamos celebrar intensamente todas as vitórias alcançadas, até porque foram à duras penas, sob o esforço de heróis e heroínas que se doaram e continuam se doando ao Estado, gente que aqui nasceu e gente que veio de fora. Esse esforço e heroísmo nos animam a olhar para o futuro e acreditar que Rondônia pode ser cada vez mais um Estado pujante sem ser destruidor, desenvolvido sem ser subalterno do modelo de desenvolvimento neoliberal que tem destruído o mundo, e influente na realidade brasileira de forma inclusiva sem deixar de receber influência de todos os grupos que aqui vivem.
Portanto, parabéns a quem vive, sonha e trabalha para construir esse Estado dos sonhos dourados.
Contudo, a festa não pode entorpecer-nos, fechar os nossos olhos e tirar nossas capacidades críticas, assim como fazem as paixões. Nosso Estado poderia ser muito melhor não fossem os cupins políticos que corroem nossas estruturas, agora de maneira visível, às claras, explícita. Temos sido conhecidos nos outros Estados pela capacidade de eleger gente desonesta, vagabunda e sem o mínimo respeito por quem trabalha e constrói de forma digna aquilo que comemoramos hoje.
Corrupção não pode ser nossa marca, pois não é a nossa marca. Essa é a marca de poucas pessoas que assumiram o poder em suas diversas esferas e que precisam ser defenestradas desses ambientes. Nossa marca é o amor pela terra e pela cultura nortista, a coragem de empreender longe de nossos lugares de origem e a disposição de ser uma nova geração que ama sua terra e quer construir um espaço digno e de igualdade a todos e todas.
Parabéns Rondônia. Somos o que construímos e seremos o que queremos construir, mas isso só será possível se tivermos a coragem de olhar para dentro e encarar não apenas nossos heróis e nossas heroínas para dar-lhes o reconhecimento que merecem, mas também de encarar nossos cânceres de corrupção e de “anti-vida” que nos corroem para tratarmos de forma pesada, ainda que seja ao alto preço de cortarmos a própria carne.
Caminhemos plantando vida de qualidade e celebrando aniversários antes que cheguem mais velórios.
domingo, 20 de novembro de 2011
Assassinatos a Indígenas Continuam Comuns
Carta de protesto escrita por estudantes Guarani e Kaiowá, dos cursos de Ciências Sociais e História e moradores da aldeia de Amambaí contra o assassinato de mais uma liderança indígena e publicada publicada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa das Populações Indígenas - NEPPI - da Universidade Católica Dom Bosco - UCDB, de Campo Grande, MS, 19-11-2011.
"Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto, recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna. O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma. Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato. As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele que me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira? Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas? As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei? O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena. Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento. Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus. E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar."
"Por volta das seis horas chegaram os pistoleiros. Os homens entraram em fila já chamando pelo Nísio. Eles falavam segura o Nísio, segura o Nísio. Quando Nísio é visto, recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna. O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma. Mais duas pessoas foram assassinadas. Alguns outros receberam tiros mas sobreviveram. Atiraram com balas de borracha também. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro tentando fugir e se esconder no mato. As pessoas se jogavam de um barranco que tem no acampamento. Um rapaz que foi atingido por um tiro de borracha se jogou no barranco e quebrou a perna. Ele não conseguiu fugir junto com os outros então tiveram que esconder ele embaixo de galhos de árvore para que ele não fosse morto.Outro rapaz se escondeu em cima de uma árvore e foi ele que me ligou para me contar o que tinha acontecido. Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta. Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora.Nós estamos aqui reunidos para pedir união e justiça neste momento.
Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira? Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas? As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei? O estado do Mato Grosso do Sul é um dos últimos estados do Brasil mas é o primeiro em violência contra os povos indígenas. É o estado que mais mata a população indígena. Parece que o nazismo está presente aqui. Parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio. Quando não matam assim matam por atropelamento. Nós podemos dizer que o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar. Os índios se tornaram os novos judeus. E onde estão nossos direitos, os direitos humanos, a própria constituição? E nós estamos aí sujeito a essa violência. Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas. Porque Ñandejara está do lado do bom e com certeza quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar."
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A SOCIEDADE RONDONIENSE E A GREVE DA UNIR

A Universidade Pública é um desses espaços em que a sociedade brasileira mais se faz representar. Ali estudamos, estudam nossos filhos/filhas e estudarão nossos netos/netas. Ali se produz reflexão intelectual e se preparam nossos dirigentes. Ali se produz capacidade de criticar e de se posicionar, enfim, ali se constrói a qualidade futura de nosso país.
Uma pena que poucas pessoas da sociedade rondoniense tiveram a oportunidade de ir ao Campus nos últimos meses e ver a situação caótica de sujeira e abandono que ali havia. Ninguém de nós teria coragem de levar um visitante de nosso Estado para apresentar aquele como sendo o centro de tudo o que uma Universidade ensina; uma pena que poucos conversaram com discentes dos cursos mais novos para saber a quantos andavam esses cursos, especialmente aqueles que precisavam de material técnico; uma pena que poucos tiveram a oportunidade de ver as condições de algumas salas do campi de Rolim de Moura. Enfim, uma pena que, como sociedade, ficamos tão alheios ao que ali acontecia.
Os poucos de nós que tivemos contato com essa realidade não sabíamos direito o que estava acontecendo. Por fim, nos restava pensar que o ensino universitário está mesmo abandonado pelo governo federal, que não repassa os recursos devidos para dar condições suficientes para o funcionamento da Instituição.
Agora, a greve de alunos e professores expõe as vísceras da UNIR e nos assustamos com o que ouvimos e lemos. Jovens alunos e alunas expõem claramente que não esperam solução a curto prazo, mas que não aceitam mais a direção do reitor, a quem acusam de ser o responsável pela má administração dessa Instituição Federal que nos é tão querida e importante.
Não é novidade que o reitor se defenda e procure negar as acusações, nem que alguns professores se coloquem em sua defesa, entretanto, é muito estranho que um senador da república seja identificado como seu protetor e o defenda com unhas e dentes como se fosse parte de seu mandato; é estranho que esse senador seja peça importante do governo federal, ou seja, se defende o reitor expõe a má atenção federal à UNIR e, se defende seu governo, expõe seu reitor à acusação de incompetência administrativa.
É estranho que a sociedade fique apática diante da greve como se essa fosse de uma empresa privada, formada por meia dúzia de abastados funcionários, e não a instituição mais importante de ensino superior que temos em nosso Estado.
Assim, seria interessante que os líderes políticos, religiosos, OAB e outros movimentos procurassem se inteirar um pouco mais do que está acontecendo para que haja uma resolução, a justiça seja feita e as aulas voltem ao normal para que o semestre não se perca.
De minha parte, como ex aluno, pai de aluna, pastor presbiteriano e presidente regional do PSOL, manifesto o apoio à greve e desejo que a melhor solução seja alcançada o mais rápido possível. A UNIR é nossa, portanto, é nosso dever lutar por ela.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
A difícil arte de ser partido no mercado consumista da política brasileira
O pior dos mundos é aquele em que a realidade sufoca os sonhos e torna os indivíduos em entorpecidos e desesperançados. É como se um tsunami de depressão endógena varresse a sociedade e nos fizesse crer que a vida perdeu a cor.
Vivemos politicamente presos à realidade das eleições. Quando acaba uma, os projetos da outra já estão atrasados em relação à necessidade que uma campanha expõe. Com isso, candidatos, partidos, mídia e até a população se alimentam de uma agitação constante, de um jogo de interesses acachapante e de uma subserviência doentia pelo processo que impede de fazermos uma análise mais clara e mais responsável do que seria o melhor para vivência política da sociedade.
Há uma gama de líderes acastelados em seus partidos procurando mais espaços para si mesmos ou para seus aliados, outros desesperados pela exigüidade do tempo em procurar um partido que lhe dê o espaço que acredita merecer, além de outros novos tentando também alguma forma de aparecer sem serem apenas instrumentos para eleição de outros mais conhecidos ou mais poderosos financeiramente.
Com isso, não se discute mais ideologia partidária e valores que caracterizem as propostas (quando têm) de cada um dos partidos. Sem isso, não há política social, há apenas uma cama enorme, preparada para pessoas dispostas a tratarem de seus próprios interesses e projetos, tornando as alianças partidárias só um meio de chegar ao poder e cada um garantir seu quinhão de influência, chantagem e muitas vezes de corrupção.
O que fazer? Primeiro é tomar consciência do processo e tomar uma decisão clara do que se quer. Quem não deseja reproduzir isso que está aí, que se não se conforme e procure partidos com o máximo de coerência e responsabilidade ideológica.
Em segundo lugar, que faça filiação comprometida, com atuação partidária ideológica e, se preciso, com candidatura pautada em propostas claras, objetivas, coerentes e sem os comprometimentos com os sistemas econômicos e políticos que impedem o compromisso com a maioria da sociedade, especialmente com a transformação social que oportuniza os menos favorecidos. É preciso que isso seja feito de maneira livre, sem se submeter às exigências desse mercado eleitoreiro inconseqüente e irresponsável que tem transformado o Brasil num gueto de política clientelista e fisiologista.
Isso é possível? Sim. Aos que crêem que a depressão ideológica pode ser vencida e que fazem de suas idéias uma forma de propor vida de qualidade e justiça e não apenas mais um produto para esse mercado raso da política atual.
Aos vivos os sonhos. Aos mortos a sepultura.
Vivemos politicamente presos à realidade das eleições. Quando acaba uma, os projetos da outra já estão atrasados em relação à necessidade que uma campanha expõe. Com isso, candidatos, partidos, mídia e até a população se alimentam de uma agitação constante, de um jogo de interesses acachapante e de uma subserviência doentia pelo processo que impede de fazermos uma análise mais clara e mais responsável do que seria o melhor para vivência política da sociedade.
Há uma gama de líderes acastelados em seus partidos procurando mais espaços para si mesmos ou para seus aliados, outros desesperados pela exigüidade do tempo em procurar um partido que lhe dê o espaço que acredita merecer, além de outros novos tentando também alguma forma de aparecer sem serem apenas instrumentos para eleição de outros mais conhecidos ou mais poderosos financeiramente.
Com isso, não se discute mais ideologia partidária e valores que caracterizem as propostas (quando têm) de cada um dos partidos. Sem isso, não há política social, há apenas uma cama enorme, preparada para pessoas dispostas a tratarem de seus próprios interesses e projetos, tornando as alianças partidárias só um meio de chegar ao poder e cada um garantir seu quinhão de influência, chantagem e muitas vezes de corrupção.
O que fazer? Primeiro é tomar consciência do processo e tomar uma decisão clara do que se quer. Quem não deseja reproduzir isso que está aí, que se não se conforme e procure partidos com o máximo de coerência e responsabilidade ideológica.
Em segundo lugar, que faça filiação comprometida, com atuação partidária ideológica e, se preciso, com candidatura pautada em propostas claras, objetivas, coerentes e sem os comprometimentos com os sistemas econômicos e políticos que impedem o compromisso com a maioria da sociedade, especialmente com a transformação social que oportuniza os menos favorecidos. É preciso que isso seja feito de maneira livre, sem se submeter às exigências desse mercado eleitoreiro inconseqüente e irresponsável que tem transformado o Brasil num gueto de política clientelista e fisiologista.
Isso é possível? Sim. Aos que crêem que a depressão ideológica pode ser vencida e que fazem de suas idéias uma forma de propor vida de qualidade e justiça e não apenas mais um produto para esse mercado raso da política atual.
Aos vivos os sonhos. Aos mortos a sepultura.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Porto Velho em Crise Aguda
Há instantes que a vida exige que façamos uma avaliação séria do nosso contexto, pois só assim tomamos consciência da realidade em que estamos inseridos. O município de Porto Velho precisa ser avaliado pela sociedade civil organizada, propostas precisam ser feitas e novas atitudes administrativas precisam ser cobradas, sem se preocupar prioritariamente com quem são os responsáveis pela situação e sim com o que deve ser feito e por quem deve ser feito.
Precisamos urgentemente que pessoas envolvidas com causas específicas tragam dados claros a respeito destas e, após analisadas num coletivo, novas propostas sejam feitas e novas posturas sejam cobradas de quem de direito.
É fundamental saber exatamente o que está acontecendo com as obras inacabadas, como é o caso dos viadutos, pois, além das desconfianças quanto à segurança do projeto, além da demora excessiva de seu término, além da quantidade de dinheiro público neles empenhados, essas obras estão piorando em muito a situação já ruim de nosso trânsito.
A precária condição do transporte coletivo, a parca sinalização das ruas, a nulidade da polícia preventiva e educadora no trânsito têm tornado a movimentação na cidade uma batalha a cada dia. Se exige urgentemente que o poder público chame para si o seu papel de gestor e a sociedade precisa ajudar cobrando, sugerindo e assumindo posturas adequadas.
Não se pode se conformar com a falta de explicações claras e atitudes explicitadas quanto ao projeto de saneamento iniciado, incomodado e parado. Alguém tem de resolver isso urgentemente, pois não se pode viver numa capital sem saneamento e, principalmente, quando dinheiro público foi providenciado e a administração estadual não teve competência nem responsabilidade para executar.
A sociedade de modo geral precisa conhecer os números e explicações sobre as obras inacabadas da José Vieira Caula e sobre o as obras mal feitas da Av. Abunã. Quem de direito e dever tem a obrigação de cobrar e quem de direito e dever precisa explicar urgentemente.
Por último, se faz necessário conhecer também em números publicados de forma escrita quais foram os valores das prometidas compensações das malfadadas obras das usinas, onde estão investidas e quem são os responsáveis pelas execuções ou não dos projetos.
Portanto, se há estas e tantas outras questões a serem analisadas e carentes de serem explicadas, é necessário, independente de forças partidárias ou interesses individuais, de atitudes inconformadas, para que, então, cobremos e ajudemos a mudar a situação, pois mais do que uma questão administrativa, está envolvida a questão ética na política e na gestão dos bens públicos.
Que os insatisfeitos, os indignados e os conscientes se manifestem, se organizem e que possam ir às ruas, imprensa e órgãos públicos dizer o que estão vendo, sentindo e propondo.
Precisamos urgentemente que pessoas envolvidas com causas específicas tragam dados claros a respeito destas e, após analisadas num coletivo, novas propostas sejam feitas e novas posturas sejam cobradas de quem de direito.
É fundamental saber exatamente o que está acontecendo com as obras inacabadas, como é o caso dos viadutos, pois, além das desconfianças quanto à segurança do projeto, além da demora excessiva de seu término, além da quantidade de dinheiro público neles empenhados, essas obras estão piorando em muito a situação já ruim de nosso trânsito.
A precária condição do transporte coletivo, a parca sinalização das ruas, a nulidade da polícia preventiva e educadora no trânsito têm tornado a movimentação na cidade uma batalha a cada dia. Se exige urgentemente que o poder público chame para si o seu papel de gestor e a sociedade precisa ajudar cobrando, sugerindo e assumindo posturas adequadas.
Não se pode se conformar com a falta de explicações claras e atitudes explicitadas quanto ao projeto de saneamento iniciado, incomodado e parado. Alguém tem de resolver isso urgentemente, pois não se pode viver numa capital sem saneamento e, principalmente, quando dinheiro público foi providenciado e a administração estadual não teve competência nem responsabilidade para executar.
A sociedade de modo geral precisa conhecer os números e explicações sobre as obras inacabadas da José Vieira Caula e sobre o as obras mal feitas da Av. Abunã. Quem de direito e dever tem a obrigação de cobrar e quem de direito e dever precisa explicar urgentemente.
Por último, se faz necessário conhecer também em números publicados de forma escrita quais foram os valores das prometidas compensações das malfadadas obras das usinas, onde estão investidas e quem são os responsáveis pelas execuções ou não dos projetos.
Portanto, se há estas e tantas outras questões a serem analisadas e carentes de serem explicadas, é necessário, independente de forças partidárias ou interesses individuais, de atitudes inconformadas, para que, então, cobremos e ajudemos a mudar a situação, pois mais do que uma questão administrativa, está envolvida a questão ética na política e na gestão dos bens públicos.
Que os insatisfeitos, os indignados e os conscientes se manifestem, se organizem e que possam ir às ruas, imprensa e órgãos públicos dizer o que estão vendo, sentindo e propondo.
domingo, 13 de março de 2011
USINAS DO MADEIRA E O CAOS EM JACI-PARANÁ
USINAS DO MADEIRA E O CAOS EM JACI-PARANÁ
No processo de discussão sobre a viabilidade e conseqüências da construção das Usinas do Rio Madeira, ví muita gente interessada e muitos se promovendo e sonhando com os “lucros” que viriam como resultado deste empreendimento. Também vi muita crítica e preocupação com os efeitos sociais e problemas que aconteceriam nas vidas das pessoas e na natureza de modo geral.
Geralmente quem tecia loas e as mais impressionantes expectativas ao conjunto da obra eram os detentores do poder político e empresarial por tudo o que poderia vir de progresso e, agora, temos visto realmente acontecer o que haviam previsto. Políticos ganharam eleições com o discurso de que “trouxeram” as hidrelétricas para Rondônia, empresários ganham muito dinheiro e a cidade cresce a olhos vistos. Enfim, estamos alcançando o que se esperava.
Há poucos dias ouvi do prefeito da capital a seguinte expressão: “O poder público perdeu o controle da situação de Jaci-Paraná.” Fiquei estupefato. Não era um sindicalista, um líder de partido, a OAB, um professor universitário, um padre ou pastor, um líder estudantil ou qualquer outro destes que são acostumados a verem criticamente a situação social. Era o líder maior do município.
No dia 19/02 voltei a Jaci-Paraná depois de alguns meses e fiquei mais assustado ainda, entendendo o que quis dizer o prefeito. Ví o caos em sua superficialidade. Vi naqueles bares à beira do asfalto, entre uma quantidade inumerável de homens, mulheres jovens se oferecendo à prostituição, muita bebida, muita música e imaginei a quantidade de coisas indizíveis que acontecem ali e reconheço que também são parte do que está sendo produzido pelas usinas.
Gostaria de ver o Governador, o Prefeito, o representante do Judiciário, dos empresários e quem tem poder de decisão e influência, sentarem-se juntos e tomarem uma decisão quanto àquela situação. Há alvarás de funcionamentos para aqueles bares? Há fiscalização da saúde? Há fiscalização quanto a venda de bebidas para menores? Há controle de poluição sonora? Há orientação para prevenção de DSTs? Ao mesmo tempo perguntamos: há poder público alí ou é terra-de-ninguém? Fora droga, violência, depravação moral, poluição, gravidez na adolescência, DSTs que já se vê agora, daqui a alguns anos veremos uma geração de filhos sem pais, com as famílias desestruturadas e pessoas desestruturadoras da sociedade.
Parabéns aos que defenderam e conquistaram a construção das Usinas. Todos estamos desfrutando dos seus benefícios. Mas, pelo amor a Deus, usem seu poder e sua influência para fazer o que for possível para diminuir os efeitos sociais negativos desse empreendimento, pois amanhã, os que lucram hoje sofrerão na pele suas conseqüências.
Especialmente o Poder Público nos deve uma proposta!
Pr. Aluizio Vidal (Presidente Regional do PSOL – RO)
No processo de discussão sobre a viabilidade e conseqüências da construção das Usinas do Rio Madeira, ví muita gente interessada e muitos se promovendo e sonhando com os “lucros” que viriam como resultado deste empreendimento. Também vi muita crítica e preocupação com os efeitos sociais e problemas que aconteceriam nas vidas das pessoas e na natureza de modo geral.
Geralmente quem tecia loas e as mais impressionantes expectativas ao conjunto da obra eram os detentores do poder político e empresarial por tudo o que poderia vir de progresso e, agora, temos visto realmente acontecer o que haviam previsto. Políticos ganharam eleições com o discurso de que “trouxeram” as hidrelétricas para Rondônia, empresários ganham muito dinheiro e a cidade cresce a olhos vistos. Enfim, estamos alcançando o que se esperava.
Há poucos dias ouvi do prefeito da capital a seguinte expressão: “O poder público perdeu o controle da situação de Jaci-Paraná.” Fiquei estupefato. Não era um sindicalista, um líder de partido, a OAB, um professor universitário, um padre ou pastor, um líder estudantil ou qualquer outro destes que são acostumados a verem criticamente a situação social. Era o líder maior do município.
No dia 19/02 voltei a Jaci-Paraná depois de alguns meses e fiquei mais assustado ainda, entendendo o que quis dizer o prefeito. Ví o caos em sua superficialidade. Vi naqueles bares à beira do asfalto, entre uma quantidade inumerável de homens, mulheres jovens se oferecendo à prostituição, muita bebida, muita música e imaginei a quantidade de coisas indizíveis que acontecem ali e reconheço que também são parte do que está sendo produzido pelas usinas.
Gostaria de ver o Governador, o Prefeito, o representante do Judiciário, dos empresários e quem tem poder de decisão e influência, sentarem-se juntos e tomarem uma decisão quanto àquela situação. Há alvarás de funcionamentos para aqueles bares? Há fiscalização da saúde? Há fiscalização quanto a venda de bebidas para menores? Há controle de poluição sonora? Há orientação para prevenção de DSTs? Ao mesmo tempo perguntamos: há poder público alí ou é terra-de-ninguém? Fora droga, violência, depravação moral, poluição, gravidez na adolescência, DSTs que já se vê agora, daqui a alguns anos veremos uma geração de filhos sem pais, com as famílias desestruturadas e pessoas desestruturadoras da sociedade.
Parabéns aos que defenderam e conquistaram a construção das Usinas. Todos estamos desfrutando dos seus benefícios. Mas, pelo amor a Deus, usem seu poder e sua influência para fazer o que for possível para diminuir os efeitos sociais negativos desse empreendimento, pois amanhã, os que lucram hoje sofrerão na pele suas conseqüências.
Especialmente o Poder Público nos deve uma proposta!
Pr. Aluizio Vidal (Presidente Regional do PSOL – RO)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Passagens de ônibus em Porto Velho
CARTA ABERTA A POPULAÇÃO DE RONDÔNIA SOBRE O AUMENTO DA TARIFA DE ÔNIBUS NA CIDADE DE PORTO VELHO
As entidades abaixo assinadas vem de público manifestar a sua indignação ao aumento abusivo da tarifa de ônibus em Porto Velho.
A atitude adotada pelo prefeito de Porto Velho Roberto Sobrinho (PT) em conceder um aumento na tarifa de ônibus em 16,13% elevando o valor de R$ 2,30 para R$ 2,60 é um golpe traiçoeiro na população, ao mesmo tempo em que dar uma demonstração de que está do lado dos donos das empresas do setor de transporte coletivo. Ressalta que a inflação acumulada em 2010, segundo cálculos da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) deve ficar em torno de 5,9%.
Levantamento realizado entre as capitais do Brasil aponta que a maior tarifa de transporte urbano praticada atualmente é a de Porto Velho (426.558 habitantes), perdendo apenas para a cidade de São Paulo (10.886.518 habitantes) em que a tarifa foi reajustada em 11,11%, elevando o valor da passagem de R$ 2,70 para R$ 3,00 a partir de 5 de janeiro, o que fará da tarifa de ônibus da cidade de São Paulo a maior do Brasil. Porém, deve-se levar em conta que em São Paulo é percurso maior e inclui a integração com metrôs. Já a menor tarifa de ônibus entre as capitais brasileiras é a de São Luís em que o valor normal é de R$ 1,30 e a integração R$ 2,10.
Cidades como Recife (1.530.722 habitantes) e Belém (1.458.621 habitantes) a tarifa custa R$ 1,85; Fortaleza (2.447.409 habitantes) R$ 1,80; Goiânia (1.243.732 habitantes) e Manaus (1.802.525 habitantes) R$ 2,25; Rio Branco (335.796 habitantes) R$ 1,90, e em Cuiabá (823.966 habitantes) R$ 1,90, somente para se ter uma ideia.
Deve-se ter clareza que o transporte coletivo é um direito do povo, garantido na Constituição Federal de 1988, e se constitui em uma obrigação dos estados e dos municípios em oferecer esse serviço para a população. No caso em que os municípios e os estados não tenham condições de oferecer, abre-se então concessões provisórias às empresas privadas, competindo à fiscalização por parte dos poderes públicos.
O transporte assim como a saúde, a educação, a segurança, a moradia, o lazer entre outros deve ser tratado como bem público e nunca como mercadorias.
O governante deve administrar o poder público colocando-o a serviço da população e nunca a serviço de seus interesses e/ou daqueles que querem utilizá-lo em seus próprios benefícios.
EXIGIMOS
- Revogação do Decreto que institui a tarifa de R$ 2,60;
- Seja revista a composição do Conselho Municipal de Transporte de Porto Velho
- Cumprimento da Lei Orgânica do Município de Porto Velho;
- Aumento da frota com ônibus novos e dotados com ar condicionado funcionando no percurso, e adaptados às pessoas com necessidades especiais (com circulação que não exceda 5 anos);
- Passe livre para estudantes e pessoas idosas;
- Regularização nas linhas consideradas deficitárias;
- Regularização de linhas aos domingos e feriados;
- Criação do ônibus corujão;
- Construção de terminais de integração.
MOVIMENTO UNIFICADO EM DEFESA DO TRANSPORTE PÚBLICO DE QUALIDADE -MUDETRANSPUQ
CJP/CIMI/CUT-RO/DCE-UNIR/ADUNIR/CTB/CMP/Ass.dos Feirantes de PVH/CPLDS/UEMP/CACS-UNIR/PAMA/CMPV
As entidades abaixo assinadas vem de público manifestar a sua indignação ao aumento abusivo da tarifa de ônibus em Porto Velho.
A atitude adotada pelo prefeito de Porto Velho Roberto Sobrinho (PT) em conceder um aumento na tarifa de ônibus em 16,13% elevando o valor de R$ 2,30 para R$ 2,60 é um golpe traiçoeiro na população, ao mesmo tempo em que dar uma demonstração de que está do lado dos donos das empresas do setor de transporte coletivo. Ressalta que a inflação acumulada em 2010, segundo cálculos da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) deve ficar em torno de 5,9%.
Levantamento realizado entre as capitais do Brasil aponta que a maior tarifa de transporte urbano praticada atualmente é a de Porto Velho (426.558 habitantes), perdendo apenas para a cidade de São Paulo (10.886.518 habitantes) em que a tarifa foi reajustada em 11,11%, elevando o valor da passagem de R$ 2,70 para R$ 3,00 a partir de 5 de janeiro, o que fará da tarifa de ônibus da cidade de São Paulo a maior do Brasil. Porém, deve-se levar em conta que em São Paulo é percurso maior e inclui a integração com metrôs. Já a menor tarifa de ônibus entre as capitais brasileiras é a de São Luís em que o valor normal é de R$ 1,30 e a integração R$ 2,10.
Cidades como Recife (1.530.722 habitantes) e Belém (1.458.621 habitantes) a tarifa custa R$ 1,85; Fortaleza (2.447.409 habitantes) R$ 1,80; Goiânia (1.243.732 habitantes) e Manaus (1.802.525 habitantes) R$ 2,25; Rio Branco (335.796 habitantes) R$ 1,90, e em Cuiabá (823.966 habitantes) R$ 1,90, somente para se ter uma ideia.
Deve-se ter clareza que o transporte coletivo é um direito do povo, garantido na Constituição Federal de 1988, e se constitui em uma obrigação dos estados e dos municípios em oferecer esse serviço para a população. No caso em que os municípios e os estados não tenham condições de oferecer, abre-se então concessões provisórias às empresas privadas, competindo à fiscalização por parte dos poderes públicos.
O transporte assim como a saúde, a educação, a segurança, a moradia, o lazer entre outros deve ser tratado como bem público e nunca como mercadorias.
O governante deve administrar o poder público colocando-o a serviço da população e nunca a serviço de seus interesses e/ou daqueles que querem utilizá-lo em seus próprios benefícios.
EXIGIMOS
- Revogação do Decreto que institui a tarifa de R$ 2,60;
- Seja revista a composição do Conselho Municipal de Transporte de Porto Velho
- Cumprimento da Lei Orgânica do Município de Porto Velho;
- Aumento da frota com ônibus novos e dotados com ar condicionado funcionando no percurso, e adaptados às pessoas com necessidades especiais (com circulação que não exceda 5 anos);
- Passe livre para estudantes e pessoas idosas;
- Regularização nas linhas consideradas deficitárias;
- Regularização de linhas aos domingos e feriados;
- Criação do ônibus corujão;
- Construção de terminais de integração.
MOVIMENTO UNIFICADO EM DEFESA DO TRANSPORTE PÚBLICO DE QUALIDADE -MUDETRANSPUQ
CJP/CIMI/CUT-RO/DCE-UNIR/ADUNIR/CTB/CMP/Ass.dos Feirantes de PVH/CPLDS/UEMP/CACS-UNIR/PAMA/CMPV
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
ELEIÇÕES 2010 E OS APROVEITADORES DA BOA FÉ E DA CREDULIDADE EVANGÉLICA
ELEIÇÕES 2010 E OS APROVEITADORES DA BOA FÉ E DA CREDULIDADE EVANGÉLICA
Rev. Sandro Amadeu Cerveira (02/10/10)
Pastor Presbiteriano e doutor em Ciências Políticas (prof. da Universidade Federal de Alfenas).
Talvez eu tenha falhado como pastor nestas eleições. Digo isso porque estou com a impressão de ter feito pouco para desconstruir ou no pelo menos problematizar a onda de boataria e os posicionamentos “ungidos” de alguns caciques evangélicos. [1]
Talvez o mais grotesco tenham sido os emails e “vídeos” afirmando que votar em Dilma e no PT seria o mesmo que apoiar uma conspiração que mataria Dilma (por meios sobrenaturais) assim que fosse eleita e logo a seguir implantaria no Brasil uma ditadura comunista-luciferiana pelas mãos do filho de Michel Temer. Em outras o próprio Temer seria o satanista mor. Confesso que não respondi publicamente esse tipo de mensagem por acreditar que tamanha absurdo seria rejeitada pelo bom senso de meus irmãos evangélicos. Para além da “viagem” do conteúdo a absoluta falta de fontes e provas para estas “notícias” deveria ter levado (acreditei) as pessoas de boa fé a pelo menos desconfiar destas graves acusações infundadas.[2]
A candidata Marina Silva, uma evangélica da Assembléia de Deus, até onde se sabe sem qualquer mancha em sua biografia, também não saiu ilesa. Várias denominações evangélicas antes fervorosas defensoras de um “candidato evangélico” a presidência da república simplesmente ignoraram esta assembleiana de longa data.
Como se não bastasse, Marina foi também acusada pelo pastor Silas Malafaia de ser “dissimulada”, “pior do que o ímpio” e defender, (segundo ele), um plebiscito sobre o aborto. Surpreende como um líder da inteligência de Malafaia declare seu apoio a Marina em um dia, mude de voto três dias depois e à apenas 6 dias das eleições desconheça as proposições de sua irmã na fé.
De fato Marina Silva afirmou (desde cedo na campanha, diga-se de passagem) que “casos de alta complexidade cultural, moral, social e espiritual como esses, (aborto e maconha) deveriam ser debatidos pela sociedade na forma de plebiscito” [3], mas de fato não disse que uma vez eleita ela convocaria esse plebiscito.
O mais surpreendentemente, porém foi o absoluto silêncio quanto ao candidato José Serra. O candidato tucano foi curiosamente poupado. Somente a campanha adversária lembrou que foi ele, Serra a trazer o aborto para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) [4]. Enquanto ministro da saúde o candidato do PSDB assinou em 1998 a norma técnica do SUS ordenando regras para fazer abortos previstos em lei, até o 5º mês de gravidez [5]. Fiquei intrigado que nenhum colega pastor absolutamente contra o aborto tenha se dignado a me avisar desta “barbaridade”.
Também foi de estranhar que nenhum pastor preocupado com a legalização das drogas tenha disparado uma enxurrada de-mails alertando os evangélicos de que o presidente de honra do PSDB, e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso defenda a descriminalização da posse de maconha para o consumo pessoal [6].
Por fim nem Malafaia, nem os boateiros de plantão tiveram interesse em dar visibilidade a noticia veiculada pelo jornal a Folha de São Paulo (Edição eletrônica de 21/06/10) nos alertando para o fato de que “O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou nesta segunda-feira ser a favor da união civil e da adoção de crianças por casais homossexuais.” [7]
Depois de tudo isso é razoável desconfiar que o problema não esteja realmente na posição que os candidatos tenham sobre o aborto, união civil e adoção de crianças por homossexuais ou ainda a descriminalização da maconha. Se o problema fosse realmente o comprometimento dos candidatos e seus partidos com as questões acima os líderes evangélicos que abominam estas propostas não teriam alternativa.
A única postura coerente seria então pregar o voto nulo, branco ou ainda a ausência justificada. Se tivessem realmente a coragem que aparentam em suas bravatas televisivas deveriam convocar um boicote às eleições. Um gigantesco protesto a-partidário denunciando o fato de que nenhum dos candidatos com chances de ser eleitos tenha realmente se comprometido de forma clara e inequívoca com os valores evangélicos. Fazer uma denuncia seletiva de quem esta comprometido com a “iniqüidade” é, no mínimo, desonesto.
Falar mal de candidato A e beneficiar B por tabela (sendo que B está igualmente comprometido com os mesmo “problemas”) é muito fácil. Difícil é se arriscar num ato conseqüente de desobediência civil como fez Luther King quando entendeu que as leis de seu país eram iníquas.
Termino dizendo que não deixarei de votar nestas eleições.
Não o farei por ter alguma esperança de que o Estado brasileiro transforme nossos costumes e percepções morais em lei criminalizando o que consideramos pecado. Aliás tenho verdadeiro pavor de abrir esse precedente.
Não o farei porque acredite que a pessoa em quem votarei seja católica, cristã ou evangélica e isso vá “abençoar” o Brasil. Sei, como lembrou o apóstolo Paulo, que se agisse assim teria de sair do mundo.
Votarei consciente de que os temas aqui mencionados (união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização do aborto, descriminalização de algumas drogas entre outras polêmicas) não serão resolvidos pelo presidente ou presidenta da república. Como qualquer pessoa informada sobre o tema, sei que assuntos assim devem ser discutidos pela sociedade civil, pelo legislativo e eventualmente pelo judiciário (como foi o caso da lei de biossegurança) [8] com serenidade e racionalidade.
Votarei na pessoa que acredito representa o melhor projeto político para o Brasil levando em conta outras questões (aparentemente esquecidas pelos lideres evangélicos presentes na mídia) tais como distribuição de renda, justiça social, direitos humanos, tratamento digno para os profissionais da educação, entre outros temas. (Ver Mateus 25: 31-46) Estas questões até podem não interessar aos líderes evangélicos e cristãos em geral que já ascenderam à classe média alta, mas certamente tem toda a relevância para nossos irmãos mais pobres.
______________________
NOTAS
[1] As afirmações que faço ao longo deste texto estão baseadas em informações públicas e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação. Apresento os links dos jornais e documentos utilizados para verificação.
[2] http://www.hospitaldalma.com/2010/07/o-cristao-verdadeiro-nao-deve-votar-na.html
[3]http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/marina+rebate+declaracoes+de+pastor+evangelico+silas+malafaia/n1237789584105.html
Ver também http://www1.folha.uol.com.br/poder/805644-lider-evangelico-ataca-marina-e-anuncia-apoio-a-serra.shtml
[4]http://blogdadilma.blog.br/2010/09/serra-e-o-unico-candidato-que-ja-assinou-ordens-para-fazer-abortos-quando-ministro-da-saude-2.html
[5] http://www.cfemea.org.br/pdf/normatecnicams.pdf
[6] http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=856843&tit=FHC-e-intelectuais-pedem-legalizacao-da-maconha
[7] http://www1.folha.uol.com.br/poder/754484-serra-se-diz-a-favor-da-uniao-civil-e-da-adocao-de-criancas-por-gays.shtml
[8] http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=206
Fonte: Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (www.segundaigreja.org.br)
Rev. Sandro Amadeu Cerveira (02/10/10)
Pastor Presbiteriano e doutor em Ciências Políticas (prof. da Universidade Federal de Alfenas).
Talvez eu tenha falhado como pastor nestas eleições. Digo isso porque estou com a impressão de ter feito pouco para desconstruir ou no pelo menos problematizar a onda de boataria e os posicionamentos “ungidos” de alguns caciques evangélicos. [1]
Talvez o mais grotesco tenham sido os emails e “vídeos” afirmando que votar em Dilma e no PT seria o mesmo que apoiar uma conspiração que mataria Dilma (por meios sobrenaturais) assim que fosse eleita e logo a seguir implantaria no Brasil uma ditadura comunista-luciferiana pelas mãos do filho de Michel Temer. Em outras o próprio Temer seria o satanista mor. Confesso que não respondi publicamente esse tipo de mensagem por acreditar que tamanha absurdo seria rejeitada pelo bom senso de meus irmãos evangélicos. Para além da “viagem” do conteúdo a absoluta falta de fontes e provas para estas “notícias” deveria ter levado (acreditei) as pessoas de boa fé a pelo menos desconfiar destas graves acusações infundadas.[2]
A candidata Marina Silva, uma evangélica da Assembléia de Deus, até onde se sabe sem qualquer mancha em sua biografia, também não saiu ilesa. Várias denominações evangélicas antes fervorosas defensoras de um “candidato evangélico” a presidência da república simplesmente ignoraram esta assembleiana de longa data.
Como se não bastasse, Marina foi também acusada pelo pastor Silas Malafaia de ser “dissimulada”, “pior do que o ímpio” e defender, (segundo ele), um plebiscito sobre o aborto. Surpreende como um líder da inteligência de Malafaia declare seu apoio a Marina em um dia, mude de voto três dias depois e à apenas 6 dias das eleições desconheça as proposições de sua irmã na fé.
De fato Marina Silva afirmou (desde cedo na campanha, diga-se de passagem) que “casos de alta complexidade cultural, moral, social e espiritual como esses, (aborto e maconha) deveriam ser debatidos pela sociedade na forma de plebiscito” [3], mas de fato não disse que uma vez eleita ela convocaria esse plebiscito.
O mais surpreendentemente, porém foi o absoluto silêncio quanto ao candidato José Serra. O candidato tucano foi curiosamente poupado. Somente a campanha adversária lembrou que foi ele, Serra a trazer o aborto para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) [4]. Enquanto ministro da saúde o candidato do PSDB assinou em 1998 a norma técnica do SUS ordenando regras para fazer abortos previstos em lei, até o 5º mês de gravidez [5]. Fiquei intrigado que nenhum colega pastor absolutamente contra o aborto tenha se dignado a me avisar desta “barbaridade”.
Também foi de estranhar que nenhum pastor preocupado com a legalização das drogas tenha disparado uma enxurrada de-mails alertando os evangélicos de que o presidente de honra do PSDB, e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso defenda a descriminalização da posse de maconha para o consumo pessoal [6].
Por fim nem Malafaia, nem os boateiros de plantão tiveram interesse em dar visibilidade a noticia veiculada pelo jornal a Folha de São Paulo (Edição eletrônica de 21/06/10) nos alertando para o fato de que “O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou nesta segunda-feira ser a favor da união civil e da adoção de crianças por casais homossexuais.” [7]
Depois de tudo isso é razoável desconfiar que o problema não esteja realmente na posição que os candidatos tenham sobre o aborto, união civil e adoção de crianças por homossexuais ou ainda a descriminalização da maconha. Se o problema fosse realmente o comprometimento dos candidatos e seus partidos com as questões acima os líderes evangélicos que abominam estas propostas não teriam alternativa.
A única postura coerente seria então pregar o voto nulo, branco ou ainda a ausência justificada. Se tivessem realmente a coragem que aparentam em suas bravatas televisivas deveriam convocar um boicote às eleições. Um gigantesco protesto a-partidário denunciando o fato de que nenhum dos candidatos com chances de ser eleitos tenha realmente se comprometido de forma clara e inequívoca com os valores evangélicos. Fazer uma denuncia seletiva de quem esta comprometido com a “iniqüidade” é, no mínimo, desonesto.
Falar mal de candidato A e beneficiar B por tabela (sendo que B está igualmente comprometido com os mesmo “problemas”) é muito fácil. Difícil é se arriscar num ato conseqüente de desobediência civil como fez Luther King quando entendeu que as leis de seu país eram iníquas.
Termino dizendo que não deixarei de votar nestas eleições.
Não o farei por ter alguma esperança de que o Estado brasileiro transforme nossos costumes e percepções morais em lei criminalizando o que consideramos pecado. Aliás tenho verdadeiro pavor de abrir esse precedente.
Não o farei porque acredite que a pessoa em quem votarei seja católica, cristã ou evangélica e isso vá “abençoar” o Brasil. Sei, como lembrou o apóstolo Paulo, que se agisse assim teria de sair do mundo.
Votarei consciente de que os temas aqui mencionados (união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização do aborto, descriminalização de algumas drogas entre outras polêmicas) não serão resolvidos pelo presidente ou presidenta da república. Como qualquer pessoa informada sobre o tema, sei que assuntos assim devem ser discutidos pela sociedade civil, pelo legislativo e eventualmente pelo judiciário (como foi o caso da lei de biossegurança) [8] com serenidade e racionalidade.
Votarei na pessoa que acredito representa o melhor projeto político para o Brasil levando em conta outras questões (aparentemente esquecidas pelos lideres evangélicos presentes na mídia) tais como distribuição de renda, justiça social, direitos humanos, tratamento digno para os profissionais da educação, entre outros temas. (Ver Mateus 25: 31-46) Estas questões até podem não interessar aos líderes evangélicos e cristãos em geral que já ascenderam à classe média alta, mas certamente tem toda a relevância para nossos irmãos mais pobres.
______________________
NOTAS
[1] As afirmações que faço ao longo deste texto estão baseadas em informações públicas e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação. Apresento os links dos jornais e documentos utilizados para verificação.
[2] http://www.hospitaldalma.com/2010/07/o-cristao-verdadeiro-nao-deve-votar-na.html
[3]http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/marina+rebate+declaracoes+de+pastor+evangelico+silas+malafaia/n1237789584105.html
Ver também http://www1.folha.uol.com.br/poder/805644-lider-evangelico-ataca-marina-e-anuncia-apoio-a-serra.shtml
[4]http://blogdadilma.blog.br/2010/09/serra-e-o-unico-candidato-que-ja-assinou-ordens-para-fazer-abortos-quando-ministro-da-saude-2.html
[5] http://www.cfemea.org.br/pdf/normatecnicams.pdf
[6] http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=856843&tit=FHC-e-intelectuais-pedem-legalizacao-da-maconha
[7] http://www1.folha.uol.com.br/poder/754484-serra-se-diz-a-favor-da-uniao-civil-e-da-adocao-de-criancas-por-gays.shtml
[8] http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=206
Fonte: Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (www.segundaigreja.org.br)
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
PSOL 2010
A Região Norte mostrou a força e confiança no PSOL
Após seis anos de fundação, o Partido Socialismo Liberdade passou pela sua segunda eleição para cagos federais e estaduais com um saldo bastante positivo e a conquista de grandes vitórias. Apesar da tristeza de não termos conseguido eleger nomes importantes como Luciana Genro a deputada federal (RS), Heloisa Helena ao Senado (AL) e Raul Marcelo como deputado Estadual (SP), o partido agradece todos os votos obtidos e se orgulha do resultado. Durante a campanha, mesmo com poucos recursos, sem receber financiamento de empresas privadas, candidatos e militantes mantiveram a coerência e a independência, trabalharam de forma transparente e ética e, como consequência dessa atitude, sensibilizaram novos eleitores em todo o país.
Nossa maior alegria se deu no Rio. Chico Alencar foi o segundo candidato a deputado federal mais votado do Estado, com 240.724 votos. Com isso, conseguimos eleger ainda Jean Wyllys. A Câmara federal também continuará contando com a presença e a luta de Ivan Valente, que se reelegeu com 189.014 votos em São Paulo.
A Região Norte mostrou a força e confiança no PSOL elegendo Randolfe como o senador mais votado do Amapá. No Pará, além da vitória de Marinor Brito para o Senado, comemoramos o grande resultado de Edmilson Rodrigues, o deputado estadual que recebeu o maior número de votos da população.
As Assembleias Legislativas do Rio de Janeiro e São Paulo também permanecerão com a presença do PSOL. No primeiro Estado, Marcelo Freixo se reelegeu como o segundo deputado estadual mais votado e terá a companhia de Janira Rocha. No segundo, Carlos Giannazi, poderá dar sequência à sua luta pela educação pública de qualidade com sua reeleição ao cargo.
(Extraído de Email interno do PSOL)
Após seis anos de fundação, o Partido Socialismo Liberdade passou pela sua segunda eleição para cagos federais e estaduais com um saldo bastante positivo e a conquista de grandes vitórias. Apesar da tristeza de não termos conseguido eleger nomes importantes como Luciana Genro a deputada federal (RS), Heloisa Helena ao Senado (AL) e Raul Marcelo como deputado Estadual (SP), o partido agradece todos os votos obtidos e se orgulha do resultado. Durante a campanha, mesmo com poucos recursos, sem receber financiamento de empresas privadas, candidatos e militantes mantiveram a coerência e a independência, trabalharam de forma transparente e ética e, como consequência dessa atitude, sensibilizaram novos eleitores em todo o país.
Nossa maior alegria se deu no Rio. Chico Alencar foi o segundo candidato a deputado federal mais votado do Estado, com 240.724 votos. Com isso, conseguimos eleger ainda Jean Wyllys. A Câmara federal também continuará contando com a presença e a luta de Ivan Valente, que se reelegeu com 189.014 votos em São Paulo.
A Região Norte mostrou a força e confiança no PSOL elegendo Randolfe como o senador mais votado do Amapá. No Pará, além da vitória de Marinor Brito para o Senado, comemoramos o grande resultado de Edmilson Rodrigues, o deputado estadual que recebeu o maior número de votos da população.
As Assembleias Legislativas do Rio de Janeiro e São Paulo também permanecerão com a presença do PSOL. No primeiro Estado, Marcelo Freixo se reelegeu como o segundo deputado estadual mais votado e terá a companhia de Janira Rocha. No segundo, Carlos Giannazi, poderá dar sequência à sua luta pela educação pública de qualidade com sua reeleição ao cargo.
(Extraído de Email interno do PSOL)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Limite da Terra
D. Pedro Casaldáliga
Um santo profeta de antigamente dizia que Deus criou o Universo e o diabo inventou a propriedade. "A Terra é de Deus e Ela dá a todos", repete o povo. Nos quatro primeiros séculos da Igreja cristã, muitas vozes proféticas condenaram o pecado do lucro, da acumulação, da absolutização da propriedade. Seguiam o exemplo de Jesus, tão explicito frente ao dinheiro e a acumulação. Ele nos ensinou que o Pai é "nosso" e que o pão deve ser "nosso". Ele próprio se faz partilha e comunhão.
Depois dessa primeira época, banhada em sangue mártir, a Igreja de Jesus tem cometido muitas alianças espúrias com o dinheiro e o poder. Lamentavelmente ela tem ajudado com palavras, com feitos e com estruturas, a fazer da propriedade um direito "sagrado". Também ela tem ajudado, muitas vezes, a condenar a propriedade absoluta e a reivindicar a hipoteca social que pesa sobre toda a propriedade.
A propriedade é um direito e também um dever. A propriedade capitalista, por definição, acumula e exclui, justifica a fome, a miséria, a depredação e o ecocídio, o armamentismo e as guerras...
Frente à propriedade absoluta, há tempo que vêm surgindo vozes e ações de protesto, de revolta, de propostas justas e alternativas. Concretamente no nosso Brasil (e em toda nossa América). Este Brasil, que poderia ser uma bênção, ocupa o segundo lugar mundial na concentração da propriedade fundiária. É campeão em latifúndio e em desigualdade social.
Está na hora de condenar o latifúndio como uma iniquidade. Está na hora de fazer da reforma agrária uma realidade e não mais um sarcasmo de promessas e subterfúgios. Proclamamos, com indignação e com esperança, que é possível, necessário e urgente acabar com o latifúndio. Todo latifúndio é injusto. E só se fará justiça ao povo do campo com uma reforma agrária e agrícola de terra distribuída e estabelecidos os limites máximos de toda propriedade.
Estamos em campanha por um outro modelo para o campo brasileiro. Atualizaremos e radicalizaremos uma autêntica revolução no campo. Pelo Deus da vida e da Terra. Militantes e mártires, que vêm dando seu suor e seu sangue, nos comprometem e nos acompanham. Exigimos do Congresso e do Judiciário o cumprimento da Constituição que dispõe que "a propriedade atenderá sua função social".
Queremos fazer do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo um Fórum permanente e verdadeiramente nacional. E, concretizando nossa luta e reivindicação, assumimos, com a teimosia que for necessária, e em união com todas as forças vivas, a Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra.
(Artigo retirado do Boletim de Notícias do IHU da Unisinos)
Um santo profeta de antigamente dizia que Deus criou o Universo e o diabo inventou a propriedade. "A Terra é de Deus e Ela dá a todos", repete o povo. Nos quatro primeiros séculos da Igreja cristã, muitas vozes proféticas condenaram o pecado do lucro, da acumulação, da absolutização da propriedade. Seguiam o exemplo de Jesus, tão explicito frente ao dinheiro e a acumulação. Ele nos ensinou que o Pai é "nosso" e que o pão deve ser "nosso". Ele próprio se faz partilha e comunhão.
Depois dessa primeira época, banhada em sangue mártir, a Igreja de Jesus tem cometido muitas alianças espúrias com o dinheiro e o poder. Lamentavelmente ela tem ajudado com palavras, com feitos e com estruturas, a fazer da propriedade um direito "sagrado". Também ela tem ajudado, muitas vezes, a condenar a propriedade absoluta e a reivindicar a hipoteca social que pesa sobre toda a propriedade.
A propriedade é um direito e também um dever. A propriedade capitalista, por definição, acumula e exclui, justifica a fome, a miséria, a depredação e o ecocídio, o armamentismo e as guerras...
Frente à propriedade absoluta, há tempo que vêm surgindo vozes e ações de protesto, de revolta, de propostas justas e alternativas. Concretamente no nosso Brasil (e em toda nossa América). Este Brasil, que poderia ser uma bênção, ocupa o segundo lugar mundial na concentração da propriedade fundiária. É campeão em latifúndio e em desigualdade social.
Está na hora de condenar o latifúndio como uma iniquidade. Está na hora de fazer da reforma agrária uma realidade e não mais um sarcasmo de promessas e subterfúgios. Proclamamos, com indignação e com esperança, que é possível, necessário e urgente acabar com o latifúndio. Todo latifúndio é injusto. E só se fará justiça ao povo do campo com uma reforma agrária e agrícola de terra distribuída e estabelecidos os limites máximos de toda propriedade.
Estamos em campanha por um outro modelo para o campo brasileiro. Atualizaremos e radicalizaremos uma autêntica revolução no campo. Pelo Deus da vida e da Terra. Militantes e mártires, que vêm dando seu suor e seu sangue, nos comprometem e nos acompanham. Exigimos do Congresso e do Judiciário o cumprimento da Constituição que dispõe que "a propriedade atenderá sua função social".
Queremos fazer do Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo um Fórum permanente e verdadeiramente nacional. E, concretizando nossa luta e reivindicação, assumimos, com a teimosia que for necessária, e em união com todas as forças vivas, a Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra.
(Artigo retirado do Boletim de Notícias do IHU da Unisinos)
sábado, 4 de setembro de 2010
Debate em alto nível
TENDÊNCIAS/DEBATES
Qualquer semelhança não é coincidência FREI BETTO
--------------------------------------------------------------------------------
Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças; a exceção é Plínio, que defende o socialismo
--------------------------------------------------------------------------------
O Brasil ainda tem muito a conquistar nos quesitos saúde, educação, saneamento, moradia, segurança e infraestrutura (rodovias, portos e aeroportos). É um gigante com pés de barro.
Contudo, nossa democracia se aprimora graças aos movimentos sociais, à mídia vigilante, à exigência de transparência e à adoção de leis como a Ficha Limpa.
Algo de novo marca a atual disputa presidencial. Os quatro candidatos com melhor posição nas pesquisas têm em comum muito mais do que julga nosso vão preconceito.
Nenhum deles vem das tradicionais oligarquias que se acostumaram a fazer na vida pública o que fazem na privada. Nem pertencem à elite brasileira ou nasceram em berço esplêndido. Os quatro se originaram na classe pobre ou média. Todos abominam a ditadura militar, o conservadorismo e tiveram na esquerda sua iniciação política.
Três foram vítimas da ditadura: Plínio (cassado e exilado); Serra (exilado) e Dilma (presa e torturada). Marina, alfabetizada aos 16 anos, sofreu a opressão do latifúndio amazônico. Filha do seringal e discípula de Chico Mendes, viu-se obrigada a se "exilar" da floresta para livrar-se da pobreza e da falta de escolaridade.
Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças. A exceção é Plínio, que não se envergonha de defender o socialismo. O PSOL vale-se do período eleitoral para divulgar suas propostas e se afirmar como partido. Isso oxigena o debate democrático.
Dilma, Serra e Marina se irmanam na arte de se equilibrar na corda bamba. Evitam tombar à esquerda ou à direita e adotam discurso que não desagrada nem a uma nem a outra.
Assim, a distância entre oposição e situação quase se anula e permite a Lula, que faz um bom governo, manter-se na confortável posição de quase unanimidade nacional. E a Henrique Meirelles despontar como o nosso Alan Greenspan, que ficou quase 20 anos à frente do Banco Central dos EUA.
Embora discurso de campanha seja como produto de feira livre -não passa recibo-, e os quatro candidatos apareçam envoltos numa aura de confiabilidade, o problema reside no andar de baixo.
Ao contrário do ditado, o andor é de barro, e não o santo. Dilma ou Serra terão de governar sob pressão dos últimos redutos da oligarquia, o PMDB e o DEM, alvos de frequentes denúncias de corrupção, nepotismo e outras maracutaias.
Marina, como já declarou, tentará suprir sua falta de alianças com um governo supostamente suprapartidário. O que, aliás, fez de fato o governo Lula, a ponto de merecer o apoio de Collor, Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Roberto Jefferson e José Roberto Arruda.
Plínio, realista, sabe que a chance presidencial do PSOL é ainda um projeto de futuro.
Algo de comum entre os quatro chama a atenção: o silêncio diante da corrupção que assola a política brasileira. Os quatro são éticos, fichas limpas. Mas Dilma, Serra ou Marina, quem for eleito, terá de quebrar ovos para fazer a omelete.
Ou fazer de conta que, neste reino tupiniquim, que não se parece com a Dinamarca, nada há de podre.
Quem vencer verá.
--------------------------------------------------------------------------------
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de "Hotel Brasil - O Mistério das Cabeças Degoladas" (ed. Rocco), entre outros livros.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
Qualquer semelhança não é coincidência FREI BETTO
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Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças; a exceção é Plínio, que defende o socialismo
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O Brasil ainda tem muito a conquistar nos quesitos saúde, educação, saneamento, moradia, segurança e infraestrutura (rodovias, portos e aeroportos). É um gigante com pés de barro.
Contudo, nossa democracia se aprimora graças aos movimentos sociais, à mídia vigilante, à exigência de transparência e à adoção de leis como a Ficha Limpa.
Algo de novo marca a atual disputa presidencial. Os quatro candidatos com melhor posição nas pesquisas têm em comum muito mais do que julga nosso vão preconceito.
Nenhum deles vem das tradicionais oligarquias que se acostumaram a fazer na vida pública o que fazem na privada. Nem pertencem à elite brasileira ou nasceram em berço esplêndido. Os quatro se originaram na classe pobre ou média. Todos abominam a ditadura militar, o conservadorismo e tiveram na esquerda sua iniciação política.
Três foram vítimas da ditadura: Plínio (cassado e exilado); Serra (exilado) e Dilma (presa e torturada). Marina, alfabetizada aos 16 anos, sofreu a opressão do latifúndio amazônico. Filha do seringal e discípula de Chico Mendes, viu-se obrigada a se "exilar" da floresta para livrar-se da pobreza e da falta de escolaridade.
Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças. A exceção é Plínio, que não se envergonha de defender o socialismo. O PSOL vale-se do período eleitoral para divulgar suas propostas e se afirmar como partido. Isso oxigena o debate democrático.
Dilma, Serra e Marina se irmanam na arte de se equilibrar na corda bamba. Evitam tombar à esquerda ou à direita e adotam discurso que não desagrada nem a uma nem a outra.
Assim, a distância entre oposição e situação quase se anula e permite a Lula, que faz um bom governo, manter-se na confortável posição de quase unanimidade nacional. E a Henrique Meirelles despontar como o nosso Alan Greenspan, que ficou quase 20 anos à frente do Banco Central dos EUA.
Embora discurso de campanha seja como produto de feira livre -não passa recibo-, e os quatro candidatos apareçam envoltos numa aura de confiabilidade, o problema reside no andar de baixo.
Ao contrário do ditado, o andor é de barro, e não o santo. Dilma ou Serra terão de governar sob pressão dos últimos redutos da oligarquia, o PMDB e o DEM, alvos de frequentes denúncias de corrupção, nepotismo e outras maracutaias.
Marina, como já declarou, tentará suprir sua falta de alianças com um governo supostamente suprapartidário. O que, aliás, fez de fato o governo Lula, a ponto de merecer o apoio de Collor, Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Roberto Jefferson e José Roberto Arruda.
Plínio, realista, sabe que a chance presidencial do PSOL é ainda um projeto de futuro.
Algo de comum entre os quatro chama a atenção: o silêncio diante da corrupção que assola a política brasileira. Os quatro são éticos, fichas limpas. Mas Dilma, Serra ou Marina, quem for eleito, terá de quebrar ovos para fazer a omelete.
Ou fazer de conta que, neste reino tupiniquim, que não se parece com a Dinamarca, nada há de podre.
Quem vencer verá.
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CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, frade dominicano, é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de "Hotel Brasil - O Mistério das Cabeças Degoladas" (ed. Rocco), entre outros livros.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
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